E se você levar sua emoção para passear?

Sabe isso que você está sentindo agora? Você consegue nomear? Você consegue identificar o que pode ter ocasionado essa resposta emocional? Se um evento externo, um pensamento... 

Estou chamando atenção para autopercepção justamente porque, primeiramente, é bem difícil que ela aconteça e, depois, muito mais difícil que seja feita quando estamos lidando com emoções desconfortáveis. 

De fato, por que sentir o desconforto e lidar com ele?

Sentir ansiedade, medo, preocupação, tristeza, raiva, irritabilidade, são exemplos de respostas emocionais que não queremos lidar e, além, queremos nos livrar. Automaticamente e instintivamente, buscamos sair de situações que geram desconforto. 

Para que permanecer, se sabemos que dói sentir, que dói viver o desconforto, a emoção?

Mas a grande questão é: se a emoção, se o sentir é interno, ocorre "na parte de dentro" de nós, para aonde nós vamos fugir, se no final das contas estaremos levando conosco essa emoção, esse pensamento, esse sentir? 

E sim, podemos decidir não lidar com os eventos que ocorrem "do lado de fora", como aquele encontro ou situação que pode nos colocar em posição de avaliação e vulnerabilidade, mas será que se esquivar desses eventos externos também não geram outros desconfortos internos que teremos que bancar num momento posterior? 
Ficamos tão imersos na tentativa de evitar e não sentir, que nos esquecemos de um fato, que mesmo querendo, e querendo muito, não temos esse controle. 

Mas afinal, o que de pior pode acontecer se, definitivamente, decidirmos viver MESMO que haja a emoção desconfortável e o desconforto? 

Não podemos fugir de sentir. A alternativa que buscamos, por vezes, é evitar momentaneamente lidar com o desconforto, fugir das situações e eventos, mas é tão momentâneo que, sem que nos demos conta, a emoção, e com ela o desconforto, ressurgem, aliás, lembram a nós, que na verdade, nem "foram embora"!

Uma alternativa é aprender a levar a emoção para passear e, se possível, "segurando na mão" do desconforto. 

Quando convidamos uma criança para caminhar conosco, damos a mão a ela e a guiamos, protegemos e ensinamos alguns possíveis caminhos. Esperamos, com isso, que a criança nos acompanhe no percurso, que ela siga do nosso lado e segure a nossa mão, sentindo-se segura e, conosco, admirando a caminhada, mesmo que por vezes, ela vislumbre outras paisagens e queira seguir o seu próprio caminho e soltar nossa mão. 

E mesmo que a criança insista, esperneie e faça o possível para seguir sozinha, temos nossa responsabilidade, não podemos simplesmente soltar a mão dela, por mais conturbado que seja o momento, pois, fazer isso, seria um risco muito a alto, para nós e para ela. 

Sendo assim, quando levamos a criança para caminhar, seguramos firmes a sua mão e a orientamos na caminhada, cuidamos e tomamos cuidado para que ela aprenda o caminho e, futuramente, aprenda a seguir sem que a mão esteja tão apertada, sentindo-se mais livre até. 

Agora imagine você sentindo a sua emoção mais desconfortável. Assumir que ela está ai, é uma alternativa de "dar as mãos" a ela e, uma vez que seguramos, podemos caminhar e mostrar que, MESMO com esse sentir desconfortável, é possível seguir, é possível nos proteger. 

Aprendemos que quando caminhamos com o desconforto, e não o acumulamos em uma esquiva, podemos, aos poucos, deixá-lo mais confortável para ir, para seguir. Se tentarmos "soltá-lo" justamente porque é tão forte e gera sofrimento, por vezes, alguns prejuízos podem vir a tona e fazer com que o sofrimento se estenda. Lembram que não dá para soltar a mão da criança só porque ela quer? Porque se assim fizermos, momentaneamente, ficaremos livres do desconforto e da reação negativa dela, mas depois teremos que arcar com consequências muito maiores, como possíveis acidentes. 

Quando decidimos "soltar a mão" do desconforto, estamos decidindo pelo momento, o quanto é bom não viver o que gera sofrimento. Queremos nos livrar. 

Em contrapartida, se pensarmos que é justamente porque dói que devemos "segurar" a dor, suportá-la, entende-la e senti-la, podemos, assim como com a criança, vislumbrar possibilidades, como a tomada de consciência sobre o sentir que, aos poucos, justamente por nos permitir sentir, pode aliviar maiores desconfortos. 

Aprender a levar a emoção para passear é, sem dúvidas, tarefa difícil. Requer empenho, disponibilidade e muita dedicação. Requer paciência também, pois às vezes pode pesar mais que o habitual. Mas entender que emoções e desconfortos fazem parte da vida, é prerrogativa para que você aprenda que, MESMO sentindo, você pode levá-los para passear e viver uma vida com mais sentindo. 

Afinal, precisamos aprender a VIVER MESMO com o desconforto, e não PELO DESCONFORTO!

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